terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Vik Muniz (VM)

 
   Com obras nos principais museus de arte contemporânea do mundo, como o Metropolitan, o Whitney, o MoMA, de Nova York e o Reina Sofia, de Madrid, Vik Muniz, artista plástico brasileiro conhecido no mundo inteiro, consegue utilizar a fotografia como meio de representação de um diálogo com a História da Arte, que chega ao entendimento de todos pela simplicidade dos materiais que utiliza, quebrando a idéia de que arte é algo que só quem lida com ela entende.

   Paulistano radicado nos Estados Unidos desde 1983, Vik Muniz deixou o país após levar um tiro na perna ao tentar apartar uma briga em um bar de São Paulo (um dos brigões bancou a viagem como uma espécie de indenização). Hoje dividido entre Nova York e Rio, no entanto, nunca teve uma temporada de tanta atividade por aqui. A retrospectiva Vik, por exemplo, atraiu 200 000 pessoas ao Masp. Encerrou 2010 com um projeto ambicioso: um catálogo raisonné que abrange toda a sua produção ao longo de 22 anos.

   Um vídeo do artista mostra um pouco a exposição que percorreu o Brasil em 2009/2010 e que depois se transformou no livro retrospectiva "Vik"



Considerações sobre o autor
Por Affonso Romano de Sant’Anna 

   A exposição de Vik Muniz mexe numa série de questões: o reencontro da arte com o público; o reencontro com a figuração; o reencontro com o social-histórico; a desmistificação da falsa querela entre fotografia e pintura; e a superação das “in-significâncias” que caracterizam grande parte de obras “contemporâneas”.

   A essas se seguem outras questões igualmente instigantes. Algumas pessoas ao verem sua exposição ficam sem saber como classificá-lo. Criador ou re-criador? Teria ele descoberto (como ocorre com alguns artistas hoje em dia) alguns “truques” e “macetes”, que repete, ou supera esse vício da arte do nosso tempo?

   1. Sua exposição realiza o reencontro do público com a arte. Isto é raríssimo hoje em dia. O que tem caracterizado certas mostras é aquilo que Jean Clair – crítico de arte de maior prestígio na França – chamava de “multidões sonâmbulas”. Ir a museu virou uma variante do turismo. Pessoas vagando entre obras que não entendem sem conseguir compatibilizar as bulas oferecidas com o produto exposto. Ou então, propostas de interatividades entre a in-singificância e a idiotice. VM consegue a empatia e a admiração do público e a atenção de críticos.

   2. Essa exposição derruba outra falácia “contemporânea”: de que a figura acabou/a representação morreu. Neste sentido, VM superou essa espécie de querela entre os atuais “protestantes” (contra figura) e os atuais católicos (pela representação).

   3. Coloca mais uma pá de cal na equivocada querela entre pintura e fotografia. Se há cerca de cem anos uns achavam que a fotografia mataria a pintura, a obra de VM inscreve um capítulo nessa novela que poderia ter um título: quando a fotografia ressuscita a pintura, o quadro e o painel. Aqui a fotografia está dialogando com várias artes vizinhas: a escultura, o desenho, a pintura, a gravura, etc. O fotógrafo não compete com outros gêneros, mas soma-os ao seu fazer.

4. Ao contrário de in-certas manifestações “contemporâneas”, as obras de VM têm um sentido social, histórico e político. Trabalha com imagens de favelados, com ícones de nossa cultura, com fatos jornalísticos, faz uma crítica clara ao momento histórico e à sociedade de consumo, além de se envolver pessoalmente em programas sociais. Retomando a já clássica e incontornável relação entre lixo & luxo, diverge da arte produzida nas últimas décadas que exercitava um tipo de niilismo e alienação. Sua exposição, já no princípio mostra, criticamente, aquele mapa do mundo onde os continentes são representados por computadores e peças eletrônicas amontoadas e outros dejetos da cultura moderna.

   5. VM dialoga com a arte “anterior”, não para ridicularizá-la juvenilmente, mas para reinscrevê-la, metamorfoseá-la no tempo & espaço. Desenvolve um trabalho de paráfrase, paródia e de estilização de obras de Caravaggio, Goya, Monet, Gauguin, Piranesi, Boticelli, Bosh, etc. (Por vício acadêmico alguém pode querer chamá-lo de pós-moderno.) É curioso notar, contrastivamente, que se alguns artistas do princípio do século 20 queriam queimar museus e jogar a arte anterior no lixo, no final do mesmo século, como se tivessem juntando as contradições, outros artistas, como VM, não pregam a ruptura, mas vão ao passado com olhos no presente & futuro para reprocessar, reciclar conteúdos e conceitos.

   Neste sentido, diria que é um “comentarista” da arte de ontem & hoje, pois está relendo várias obras clássicas à sua maneira, “refazendo-as”, “reinterpretando-as” com materiais pouco convencionais. Ao retomar os “antigos”, ele está não apenas revisitando, mas “reilustrando” a história.

   E aqui a palavra “ilustração” tem sua pertinência. Há algo de ilustração no sentido jornalístico do termo. E talvez aí esteja, ao mesmo tempo, tanto a força quanto os riscos de suas obras. Se alguns de seus trabalhos aparecessem como ilustração em jornais e revistas, funcionariam perfeitamente. E o caráter jornalístico e documental é tão evidente, que ele trabalha também sobre fotos & fatos da imprensa. Deve ser neste aspecto que algumas pessoas têm dificuldade em qualificá-lo, apesar de seu êxito de crítica, de público e de venda. Em contrapartida, pode-se também indagar se certas ilustrações em revistas e jornais, se certas vitrinas de lojas, se certos anúncios não transcendem também o provisório e não mereceriam a perenidade dos museus.

   6. Do ponto de vista estrutural & estruturante da obra de arte, VM vai na contramão de outro vezo contemporâneo: a entropia, a fragmentação, o improviso, o rascunho, o recorte, a dispersão, o aleatório, o acaso. Ao contrário, está ordenando a desordem, a confusão, a ambiguidade e a indecisão. E, enquanto outros artistas se perdem entropicamente nos fragmentos, ele está fazendo a “reunião”, conforme uma noção heideggeriana de arte como “reunião relevante e/ou revelante”. Enfim, onde outros dispersam, ele aglutina, onde outros se confundem, ele se esclarece. VM está reunindo as partes em função do todo, o átomo em função da matéria, o pigmento em função da imagem e do assunto. Oferece uma visão gestaltiana do caos, ordenando-o, mostrando-o pelo seu avesso.

   7. Daí outra característica essencial de seu trabalho. E a palavra “trabalho” aqui faz sentido. Nele há técnica e criatividade. Onde outros praticam aquilo que no livro O Enigma Vazio, Impasses da Arte da Crítica, chamei de “irresponsabilidade estética e a estética da irresponsabilidade”, esse é um autor que não apenas se insere no seu tempo & espaço históricos, mas tem métier, pesquisa e desenvolve um projectum. Seu fazer tem uma “estrutura”, em que a “invariante” é o fragmento e as “constantes” são os diversos materiais que usa para preencher o conjunto.

   8. Poder-se-ia alegar que ele utiliza técnicas mais velhas que a Sé de Braga. Com efeito, nas procissões religiosas em Ouro Preto ou São João Del Rey, para ficarmos apenas no Brasil, as ruas são decoradas com pétalas de flores, utilizando uma técnica pontilhista. Igualmente, os que fazem desenho com areia colorida dentro de garrafas, como no Ceará, ou até mesmo aqueles artistas de calçada que, em Nova York e Paris, desenham nos passeios surpreendentes cópias de quadros que estão nos museus, tudo isto tem a ver com a obra de Vik Muniz.

   Igualmente o ilusionismo, as anamorfoses que no barroco conhece/eram seu apogeu, podem ser lembradas em relação a algumas de suas obras. É até possível que alguém queira chamá-lo de neobarroco, como se tornou moda dizer nos últimos 40 anos. Com efeito, olha-se a obra, e de longe se vê uma coisa, de perto se vê outra , e as duas visões se informam, a informação se complementa até pelo avesso. Mas o seu ilusionismo, reconheça-se, produz efeito, não é um jogo gratuito, mas resulta em nova informação e sensibilização estética. Não tem nada a ver com a falsa equivocada pregação duchampiana da “indiferença”.

   Em síntese, a obra de VM sendo de certo modo sintoma de sua época, por outro lado, se opõe ao que tenho definido como “in-significância”. Ou seja, grande parte das obras expostas em galerias, museus e festivais tipo Documenta Kassel, são “enigmas vazios”. São exercícios falaciosos que, se chamam a atenção, devem isto à estratégia de marketing da espetacularização.

Dou um exemplo, apenas um, das correlações possíveis entre as obras de VM e outros “contemporâneos”. Consideremos as obras de Daniel Spoeri, lá nos anos 60. No afã de ter que inventar sempre algo de novo e/ou diferente, lançou ele um tipo de arte ligada à comida – a eat art (arte comida), que consistia em expor pratos com restos de comida deixados às vezes até a podridão. Uma típica “in-significância” como tantas outras.

No caso de VM ele retoma a ideia, não a coisa. O que ele expõe não é apenas o chocolate representando uma figura nem o macarrão parodiando a Medusa de Caravaggio, mas a representação, a fotografia da ideia. Ou seja, enquanto em outros (como na “land art”) o espetáculo é a obra, no caso de VM a obra é espetáculo. Vamos a um exemplo do que digo: uma coisa “in-significante” é encher um caminhão de lixo e espetaculosamente despejar os dejetos dentro de uma galeria de arte, com já foi feito na França e outros países; outra, bem outra, é trabalhar sobre o lixo, reprocessá-lo teórica e tecnicamente. Enfim, a matéria bruta não é necessariamente arte. Arte é transformação, melhor ainda, transfiguração.

   VM dá a sensação de descontração, de liberdade, de estar centrado num trabalho consequente. Picasso falou aquela frase de efeito que é apenas parcialmente verdadeira: “Eu não procuro, eu acho.” De VM se poderia dizer que ele encontra, porque procura com atenção, paciência e criatividade.

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